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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Entrevista com Antônio Cesar Perri de Carvalho, ex-presidente da FEB (*)

  
Antônio César Perri de Carvalho 


(*) Questões propostas por: Jorge Hessen, José Passini, Leonardo Marmo, Astolfo Olegário, Eurípedes Kuhl, Wilson GarciaJosé Sola, Paulo Neto, Roberto Cury, Irmãos W. (Autores Espíritas Clássicos).


1) Considerando as pressões e complexidades inerentes ao cargo de presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), que tipo de concessão o senhor foi constrangido a aceitar em prol de um apaziguamento ou visando à obtenção de projetos que, no respectivo momento, considerava mais prioritários para o Movimento Espírita e para a melhor divulgação doutrinária? Que avaliação retrospectiva o senhor faria, hoje, desse (s) procedimento (s) e de suas repercussões?


Cesar Perri – Assumimos a presidência interina da FEB, na condição de um dos vice-presidentes, por indicação do ex-presidente Nestor João Masotti, que se licenciava para tratamento de saúde; em seguida, por renúncia deste amigo, fomos eleito presidente. No conjunto atuamos na presidência no período de maio de 2012 a março de 2015. Foram momentos de muitas complexidades internas na FEB e na sua relação com o Conselho Espírita Internacional, que também apresentava dificuldades administrativas. Não fizemos concessões, mas percebemos resistências e o ritmo lento de muitas providências.
Sentimos claramente que existiam pontos de vistas diferentes dos nossos acerca do papel a ser exercido pela FEB no movimento espírita. Em nossa ótica, entendemos a FEB como uma instituição nacional, que deve interagir com o movimento espírita do país, e, nesta condição o chamado “campo experimental” não deveria gerar a ideia de “modelo”, pois entendemos que o mais importante para o trabalho federativo são as experiências provenientes do movimento espírita como um todo, sem qualquer ação que poderia vir a ser confundida com centralização. 
Por outro lado, desde o primeiro momento da gestão e ainda na interinidade, realizamos reuniões quinzenais conjuntas do Conselho Diretor (integrado pelo presidente e vice-presidentes) e da Diretoria Executiva da FEB (integrado por diretores). Dessa maneira todos os assuntos e encaminhamentos foram decididos nessas reuniões e se implantou a gestão com base em orçamento. No período de nossa gestão, sempre com divulgação ampla, convocamos duas Assembleias Gerais.
Extraordinárias, reuniões extraordinárias do Conselho Superior e do Conselho Federativo Nacional - CFN, e, efetivamos reuniões conjuntas do Conselho Federativo Nacional e do Conselho Superior. Muitos pontos de vistas divergentes foram equacionados nesse conjunto de reuniões. Enfim, seguíamos um projeto de favorecer maior participação do movimento espírita brasileiro, iniciado desde a gestão do ex-presidente Nestor Masotti. Por indicação e com apoio deste ex-presidente, previamente, exercemos durante oito anos o encargo de secretário geral do CFN da FEB, com essa linha de atuação. Mas sentimos que isso gerou resistências internas na instituição. Evidentemente que gostaríamos de ter completado o Projeto de Planejamento Estratégico da FEB, que iniciamos, e, de termos concluído propostas de adequação e de dinamização de atividades na área federativa e na área editorial da FEB.


2) Por que a FEB mantém o atual modelo do Conselho Superior - que certamente teve sua finalidade nos primórdios da implantação do Movimento Espírita no Brasil - até o presente, numa centralização de poder que se assemelha ao Colégio Cardinalício do Vaticano, tirando o poder do Conselho Federativo Nacional?


Cesar Perri – Sem comentar a comparação colocada na indagação, geralmente se lembra do Conselho Superior relacionando-se com a sua função de “colégio eleitoral”. Há um registro histórico público do ex-presidente da FEB Leopoldo Cirne (gestão 1900/1913) - em um livro de 1935, - aliás com um título não usual Antichristo, Senhor do Mundo -, onde analisou a criação e o funcionamento de órgãos da FEB e a criação do que chamou de “verdadeiro círculo vicioso”. Em nossa ótica, a composição e as atribuições do Conselho Superior deveriam ser revistas para se adequar melhor a uma instituição de caráter nacional, e, também, efetivamente atuar como um conselho semelhante aos conselhos de administração das empresas da atualidade.
Entendemos que as atribuições e efetivas ações do Conselho Superior da FEB deveriam ser até ampliadas, para uma participação mais ativa dos seus membros no acompanhamento das decisões e ações do Conselho Diretor e da Diretoria Executiva. Na tentativa de promover uma ação mais próxima do Conselho Superior com a direção da FEB e com o movimento federativo, convocamos reuniões extraordinárias e também conjuntas do Conselho Superior com o Conselho Federativo Nacional da FEB. 


3) Considerando o grande número de títulos que são publicados pela Federação Espírita Brasileira (FEB) e a condição de “indisponível” de várias obras altamente relevantes doutrinariamente, seria interessante saber como é discutida, pela direção da FEB, os livros que devem receber prioridade para serem publicados, divulgados e distribuídos. Assim sendo, que fatores são levados em consideração e como as discussões são empreendidas, uma vez que a FEB publica Chico Xavier, Divaldo P. Franco e Yvonne A. Pereira, além de Denis, Delanne e Bozzano, entre outros, além, obviamente, de Allan Kardec? 


Cesar Perri – Assumimos a gestão da FEB em época muito complicada, com necessidade de decisões urgentes relacionadas com a desativação da gráfica, iniciada na gestão do ex-presidente Nestor Masotti, e, depois de todo o prédio ligado à editora no Rio de Janeiro, implantando-se a terceirização das impressões com cotações em várias grandes gráficas e a distribuição dos livros utilizando-se experiente empresa de logística. Também houve necessidade de revisão de todos os textos dos livros, atualização das capas e da diagramação dos livros. Simultaneamente já sentíamos os reflexos iniciais da crise econômica do país. Há um Conselho Editorial - integrado por dirigentes da FEB -, e que tem a atribuição de analisar novas obras e reedições; e, durante nossa gestão, se iniciou um processo de maior interação entre este e o Conselho Diretor e a Diretoria Executiva da FEB, para a definição de prioridades do ponto de vista doutrinário e da realidade do mercado livreiro. Na nossa visão esse processo estava apenas se iniciando e deveria ser aprofundado e aperfeiçoado.


4) Por que a FEB continua publicando a obra de J.B. Roustaing, que diverge frontalmente de princípios doutrinários apresentados por Kardec? Considerando o desígnio da unificação do M.E.B. e permanecendo a FEB obsessivamente apadrinhando e divulgando “ Os Quatro Evangelhos” de J.B. Roustaing, não seria essa incomoda obstinação lesiva à união dos espíritas? Será que espera uma campanha de esclarecimento a ser deflagrada no meio espírita? 


Cesar Perri – Quando assumimos a presidência da FEB estavam esgotados muitos títulos. A obra citada e muitas outras não foram reeditadas durante nossa gestão. Com relação à divulgação da obra referida, mantivemos o acordo feito durante a gestão do ex-presidente Francisco Thiesen - e sempre lembrada pelo ex-presidente Nestor João Masotti -, que nas ações federativas e documentos do Conselho Federativo Nacional e na revista Reformador as obras de Allan Kardec seriam a base. Nunca aprovamos propostas de divulgação sobre a não recomendação de obras e muito menos de elaboração de listas de livros que eventualmente não seriam indicados. Desde os tempos de nossa atuação na União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo - USE valorizamos a Campanha “Comece pelo Começo”, de divulgação das Obras Básicas de Allan Kardec, iniciada nos anos 1970. Aliás, durante nossa gestão como presidente da FEB, o Conselho Federativo Nacional aprovou em 2014 a Campanha “Comece pelo Começo”, proposta e elaborada pela Área Nacional de Comunicação Social Espírita do CFN.

5) Você que certamente deve ter sido vítima diversas vezes de ataques e perfídias dos inimigos da luz (encarnados e desencarnados), em face as suas experiências e potencialidades federativas, já refletiu sobre a possibilidade de conduzir um movimento, em que líderes e dirigentes federativos ou não, participem ?


Cesar Perri – A diversidade de pensamentos e de sentimentos é uma característica do nosso mundo, da humanidade encarnada e da desencarnada. Vivemos essa experiência de aprendizagem, mas preponderando as vibrações fraternas, nas atividades profissionais, e, no movimento espírita, desde o início de nossa trajetória na mocidade, no centro espírita, nos órgãos de unificação municipal e regional, na direção em nível estadual da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo - durante três mandatos como presidente -, e, na convivência com o movimento espírita de nosso país, incluindo o Conselho Federativo Nacional da FEB. Inspiro-me sempre no apóstolo Paulo: “Examinai tudo, retende o bem” e no seu depoimento: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé”. Acredito que nossa “corrida” não se encerrou, mas ocorrem adequações de caminhos, e, sem a preocupação com cargos, estamos atuando como um servidor, procurando manter a “fé com obras” e bem próximo da realidade das bases do movimento espírita.


6) Algum desencanto em face da não reeleição à presidência da FEB?


Cesar Perri – Poucos dias antes da eleição, recebemos a informação de alguns dirigentes da FEB da posição deles que queriam a escolha de um outro presidente e, logo depois, divulgaram um manifesto ao Conselho Superior da FEB. Preparamo-nos para a nova circunstância, ciente de que poderiam ocorrer paralisações e alterações de projetos que defendíamos. Após deixarmos a presidência da FEB, optamos por atuar em instituição simples e funcionando em bairro mais periférico de Brasília; com a nossa participação foi criado o Grupo de Estudos Espíritas Chico Xavier (GEECX); prosseguimos atendendo a continuados convites de todas as partes do país, para visitas, palestras e o desenvolvimento de seminários, visitando inclusive o interior de vários Estados; retomamos as contribuições mensais com a Revista Internacional de Espiritismo, vínculo que já existia desde o ano de 1971, e a elaboração de livros, como os recentemente lançados pelas Editoras “O Clarim” e pela USE-SP. Em todos os rincões que nos convidam temos recebido o reconhecimento amigo e o carinho da família espírita em manifestações de solidariedade fraterna. 


7) Parece haver uma concepção generalizada de que o Espiritismo é uma religião no sentido tradicional do termo e há até mesmo quem diga que atualmente "O Evangelho segundo o Espiritismo" está sendo empregado como "O Espiritismo segundo o Evangelho". Como você percebe e conceitua essa situação?


Cesar Perri – Em palestras, artigos e em livros temos trabalhado a concepção de Allan Kardec sobre religião, que consta em O livro dos espíritos (Conclusão, item V): “O Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião [...] ele se apóia na confiança em Deus [...] convida os homens à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade [...]”.
Reconhecemos que Kardec faz importantes definições em O evangelho segundo o espiritismo (Apresentação): “Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral por si sós são ininteligíveis, parecendo alguns até irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido. Essa chave está completa no Espiritismo...”. No capítulo I deste mesmo livro Kardec inclui mensagem de Um Espírito israelita”: “Moisés abriu o caminho; Jesus continuou a obra; o Espiritismo a concluirá.” 
Destacamos que o filósofo e jornalista Herculano Pires deixou-nos significativas obras que analisam essas questões, entre outras o livro: O espírito e o tempo. Introdução histórica ao espiritismo, cuja 1ª. edição veio a lume em 1964.
Entre as Obras Básicas de Allan Kardec, percebemos que o livro O Evangelho segundo o Espiritismo é utilizado, geralmente, como “leitura preparatória” de reuniões ou como temas de palestras e que está faltando e o seu estudo. Durante nossa presidência na FEB, intensificamos a divulgação desse livro por ocasião do Sesquicentenário de sua publicação, inclusive com a sua edição em parceria com Federativas, numa tiragem de 200 mil exemplares, e, no temário do 4º. Congresso Espírita Brasileiro, em 2014. Esse congresso foi um marco de evento bem sucedido, descentralizado e efetivado simultaneamente em quatro regiões, com consultas prévias às Federativas sobre temas e expositores, e autossustentável. Também criamos as reuniões de estudo de O evangelho segundo o espiritismo, na sede da FEB em Brasília, e integramos sua equipe de facilitadores e acompanhamos o vívido interesse dos participantes de diversas faixas etárias e com diferentes graus de conhecimento doutrinário, no desenvolvimento dos temas; foram marcantes as avaliações que os frequentadores fizeram sobre essas reuniões de estudo.
No período adotou-se uma adaptação da metodologia de estudo interpretativo do Evangelho, que foi desenvolvida por Honório Onofre Abreu (ex-presidente da UEM, MG). Também foi criado o Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho (NEPE da FEB) que gerou uma série de vídeo aulas – “Evangelho à luz do Espiritismo” pela TVCEI e depois FEBtv, tendo como desdobramento o aparecimento de vários grupos de estudos de O evangelho segundo o espiritismo em vários locais do país. Ainda como consequência, a Editora FEB lançou em 2014 o livro elaborado por uma equipe, com o título O evangelho segundo o espiritismo. Orientações para o estudo. 
Após deixarmos a presidência da FEB, prosseguimos nessa linha de trabalho e inclusive elaboramos o livro Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo (Ed. O Clarim), valorizando a essência das recomendações morais de Paulo e sobre dons espirituais, com abordagens simples, objetivas e fundamentadas nas obras de Kardec e do Espírito Emmanuel, psicografadas por Francisco Cândido Xavier.


8) A figura de Chico Xavier está sendo venerada com equilíbrio ou com exagero? Você concorda que ele surge atualmente como uma voz mais forte e mais requisitada do que a de Kardec?


Cesar Perri – Na realidade, encontramos as duas situações. Surpreso, temos verificado que muitos espíritas e até dirigentes nunca leram obras psicográficas de Chico Xavier, afeitos a modismos da literatura espírita e ao estudo por apostilas. Chico Xavier era muito simples e não aceitava incensamentos dos amigos e simpatizantes. Conheci-o pessoalmente e o visitamos com assiduidade durante mais de 20 anos nas ações da Comunhão Espírita Cristã e do Grupo Espírita da Prece, e no seu lar, em Uberaba. Temos muitos registros com ele. Quando completou 70 anos de mediunidade, o homenageamos escrevendo o livro Chico Xavier. O homem e a obra (editado pela USE-SP). Nesse livro e principalmente agora, entendemos que o mais importante será a valorização do estudo de sua obra. Por escolha do CFN da FEB coordenamos nacionalmente o “Projeto Centenário de Chico Xavier” e depois divulgamos efemérides ligadas a livros, como os 70 anos da publicação de Paulo e Estêvão.
Durante nossa presidência na FEB estimulamos a ampla divulgação dos livros psicográficos de Chico Xavier, apoiamos a elaboração e o início da publicação da série Coleção O Evangelho por Emmanuel, e providenciamos um contrato de parceria da Editora CEU (de São Paulo) com FEB, para a edição dos títulos de Chico Xavier dessa tradicional casa editorial. Entendemos que o estudo dos livros deste médium devem ser realizados junto com os de Allan Kardec, aliás foi a proposta de Emmanuel nos livros em que homenageou o Centenário das obras de Kardec, a saber: Religião dos espíritos, Seara dos médiuns, Livro da esperança, Justiça divina. 


9) Por que o Movimento Espírita Brasileiro, de modo geral, não dá à defesa da vida, em especial, à prevenção do aborto a mesma prioridade das demais áreas de sua atuação?


Cesar Perri – Desde a publicação dos opúsculos Em Defesa da Vida, pela FEB, durante a gestão do ex-presidente Nestor João Masotti, e de suas atuações – que acompanhamos – na origem do Movimento Nacional da Cidadania Em Defesa da Vida – Brasil sem Aborto (2006), verificamos que com o apoio do CFN da FEB, surgiram muitas ações em vários Estados. Em vários destes, as coordenações foram realizadas por lideranças espíritas locais. Desde o início dessa campanha tivemos participação ativa, com equipe de apoio, nos eventos que estimulam a defesa da vida. Chegamos a conseguir um artigo especial para a revista Reformador, de autoria de Eros Grau, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, contrário ao aborto e publicado em 2011. Nas reuniões do CFN da FEB e nas suas ações regionais foram divulgadas e estimulamos tais Campanhas. Houve boa repercussão e bons resultados, porém, reconhecemos que são ações mais recentes ao compararmos com atividades mais antigas dos centros espíritas e do movimento espírita. 


10) Percebe-se, atualmente, um certo arrefecimento do vigor do movimento espírita no Brasil. Você concorda com essa percepção?


Cesar Perri – Talvez pudéssemos dizer que o movimento espírita – se considerarmos o movimento mais ligado ao trabalho federativo – não acompanha a expansão da base, ou seja, dos centros espíritas. Nas nossas viagens continuadas pelo interior constatamos este fato. Outro aspecto é a dimensão territorial de nosso país e seus Estados, quase um Continente, e as dificuldades financeiras para a mobilidade entre as cidades e entre os Estados. Por outro lado, acreditamos que há muito a ser realizado para a compreensão da união – como laço moral, solidário e espiritual –, o respeito à diversidade das situações e condições dos centros espíritas, e o conhecimento dessas realidades para o melhor atendimento e apoio às reais demandas das diversificadas instituições. Nas visitas a centros pequenos e com várias características, fortalecemos o ponto de vista de que o trabalho de união deve ser constantemente adequado às bases do movimento: os centros espíritas. Vale a pena a releitura e a reflexão de Allan Kardec, em assuntos correlatos, principalmente a 2ª. Parte de Obras póstumas.


11) Visando à melhoria das atividades do Movimento Espírita, sobretudo do ponto de vista da qualidade doutrinária, com a experiência de ter sido diretor, vice-presidente e presidente da FEB em um intervalo substancial de tempo, que estratégia o senhor considera que poderia ser mais eficiente por parte tanto dos confrades com maior influência em órgãos federativos e grandes centros espíritas como também dos confrades com atuação de menor repercussão em nível nacional? Nesse contexto, até que ponto a FEB observaria e seria sensível a tais esforços para ajustar suas próprias diretrizes?


Cesar Perri – Nossa sugestão é a ampla difusão das Obras Básicas de Kardec, a implementação da Campanha “Comece pelo Começo”, estimulando o estudo e a leitura direta nos livros, e procurando disponibilizar livros em formato e valor monetário compatível com a maior parcela da população brasileira, e que tem dificuldades financeiras. Cremos que é chegado o momento de se rever o processo de “escolarização” que se desenvolveu com a criação de cursos, ciclos, apostilas e exigências de pré-requisitos como faixas etárias padronizadas e de sequenciamento de frequência a cursos para a posterior integração nas atividades dos centros espíritas e do movimento espírita.
Os dados do Censo realizados pelo IBGE nos anos 2000 e 2010 apontam para realidades que são preocupantes dos espíritas declarados, de faixa social e de faixa etária. É urgente a revisão dos processos para a integração da infância e dos jovens, e da família, nos centros espíritas. A nosso ver, as propostas de trabalho precisam ser adequadas às distintas realidades dos centros espíritas, lembrando que a maioria é simples e de pequeno porte. Esses assuntos já vinham sendo abordados por algumas Federativas Estaduais e estimulamos tais estudos no Conselho Federativo Nacional da FEB, mas enfrentando algumas resistências localizadas. Repetimos sempre que há necessidade de menos formalidades e mais espontaneidade e simplicidade nas atividades espíritas. 
Estreitamos os laços com as Entidades Espíritas Especializadas de Âmbito Nacional e foi criado o Conselho Nacional delas, junto à FEB. Entendemos que o Conselho Federativo Nacional da FEB, integrado pelos presidentes das Entidades Federativas dos 26 Estados e do Distrito Federal e pelo presidente da FEB, têm uma responsabilidade muito grande no sentido de estimular o efetivo apoio, a adequação e a dinamização do movimento espírita de nosso país.


12) Na década de 1940 (antes do Pacto Áureo) líderes espíritas de Minas Gerais , São Paulo , Rio Grande do Sul entre outros sonhavam com a criação de uma Confederação espírita, qual a sua opinião sobre isso?


Cesar Perri – Nos anos 1940 e principalmente após a fundação da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (1947) surgiram propostas de união e que deveriam ser discutidas com a FEB. A primeira psicografia de Chico Xavier sobre união e unificação foi assinada por Emmanuel – “Em nome do Evangelho” -, e dirigida aos participantes do 1o Congresso Nacional Espírita em São Paulo, promovido pela USE-São Paulo, em 1948. Essa mensagem, com o título acima, foi psicografada no dia 14 de setembro de 1948, em Pedro Leopoldo, MG (In: Orientação aos órgãos de unificação. FEB). Um grupo de lideranças espíritas do Sul e do Sudeste manteve contatos com o ex-presidente da FEB Wantuil de Freitas e, finalmente, foi assinado o “Pacto Áureo” (1949), criando-se o atual Conselho Federativo Nacional da FEB.
Simultaneamente também surgiam ideias sobre uma Confederação. No ano de 1997, como presidente da USE-SP articulamos a elaboração de uma moção de união e solidariedade ao CFN da FEB, que contribuiu para se evitar o alastramento da proposta de Confederação, que crescia na oportunidade em função de polêmicas doutrinárias. A moção aprovada redundou no fortalecimento do CFN com a elaboração de novas propostas de atuação (Reformador, dezembro de 1997, p.360-1), as quais foram seguidas pelos ex-presidentes Juvanir, Masotti e por nós. Vários países adotam a organização de Confederação e o Conselho Espírita Internacional (CEI), no seu Estatuto vigente desde 2002, na prática se configura como uma confederação. No tocante ao trabalho de união e de unificação, entendemos que cabe às Entidades Federativas Estaduais, integrantes do CFN, definirem a organização e a ação federativa.


13) Suas considerações finais:


Cesar Perri –Com relação à tônica predominante das questões formuladas por vários companheiros entrevistadores, concluímos e sintetizamos, sugerindo aos leitores a reflexão sobre o último discurso de Allan Kardec, de novembro de 1868 (Revista Espírita, dezembro de 1868) - já citado anteriormente -, onde há colocações muito oportunas sobre a união dos espíritas: "Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras palavras: o amor do próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos sempre fazem parte da Humanidade. [...] O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas."

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

DA RELIGIÃO À LOUCURA



Margarida Azevedo
Sintra/Portugal

Nos bancos da catequese aprendia-se que a religião não se discute. Este princípio cohabitava com outro igualmente estranho, a saber, a nossa religião é a única verdadeira.

Em termos práticos, isto significava: Deus não se põe em causa; o binómio fé e não fé eram impensáveis; dúvida e descrença eram sinónimas; proibição da leitura da Bíblia por ser miisteriosa e os seus textos não estarem ao alcance de todos; os ateus são gente do diabo; a Ciência era vista com desconfiança, donde aderir às suas inovações era tido como prática desviante da fé. Tudo era pesado numa balança tendenciosa de moral versus imoral, de tal forma que a religião pensava pelos fiéis, criava normas comportamentais verdadeiramente impraticáveis, excluindo os seus interessses pessoais. O bom crente era aquele que abdicava de si, que pensava exclusivamente no outro, ou quase, sem objectivos particulares.

Longe da felicidade, a religião era o inferno deste mundo, o pecado que mortificava o desejo de progresso, de prazer, de liberdade, que rebaixava a vida enquanto valor supremo, sacrificando-a em nome de uma panóplia de príncipios criadores de tipos psicóticos perigosos, neuroses que se sedimentaram progressivamente no inconsciente colectivo, facto que, mediante os últimos acontecimentos, prolongou-se até aos nossos dias.

Assim, verificamos, sem a necessidade de grandes reflexões, que religião e loucura têm sido sinónimas, para os racionalistas, santidade para os seus mais altos dignatários. Iludindo os povos de que em nome de Deus tudo é permitido, na defesa ideológica do grupo religioso, porque transmissor de toda a verdade, inventaram a impunidade num mundo qualquer a que cinicamente chamam reino de deus , onde crêem que vão receber a gratificação pelos seus bons serviços: a desvaloração da vida humana.

Contra a alucinação (falar em nome de outro, de um grupo, de Deus, imposição das suas próprias convicções e princípios particulares como máximas universais, em casos mais graves, cósmicas), a Razão impõe-se denunciando a estupidificação das mentes; a Tecnologia o conforto, facilitando tarefas. Os povos, inevitavelmente, foram aderindo, rendendo-se às facilidades, ao alívio da força muscular; a Medicina evoluíu, as condições de sobrevivência melhoraram com as vacinas, os antibióticos, a melhoria das condições de higiene impõs-se, veemente. Por outras palavras, o Bem cresceu pela mão da Razão, pelo livre pensamento, coisa que a Religião nunca soube fazer. A Educação, ao alcance de todos, tornou-se objecto de consumo como outra coisa qualquer.

Hoje, caminha-se para uma autonomia do Estado, face ao religioso, porque a História também amadurece, os cidadãos politizam-se, a laicização torna-se, consequentemmente, uma necesssidade imperiosa, democratizadora do religioso. A Moral, lentamente, regressou às suas origens. É anterior à Religião.

Contudo, se a Religião teimar em permanecer na intolerância, se continuar a confundir-se com a Fé, prevalecerá não como caminho para Deus, mas uma grotesca, disforme e instável presença no mundo, isto é, está a mais. Infantilizando a fé e remetendo-a para segundo plano, a Religião tem abafado a individualidade do crente na infamante tentativa de o moldar a uma autoridade fictícia, criadora de teologias da dominação, raíz de sofrimentos, de discriminação de toda a ordem, criadora de morais desfasadas, descontextualizadas, imprudentes e mesquinhas. Ou muda e adapta-se às novas vivências, ao emergente progresso do Espírito, grito incessante da procura da Luz, abandonando a omnipotência de um saber que não possui, ou tornar-se-à estéril, pueril, desnecessária porque contrária ao grande objectivo dos homens e das mulheres, a Felicidade, bem como no encontro de ambos rumo a vivências maiores. O mundo é masculino e feminino que, pela sabedoria de um Criador supremo, se atraiem mutuamente.

A Fé tem poderes e forças que a Religião jamais terá; a Fé transporta montanhas, perdoa, é inerente a todo o ser humano; a Religião é para alguns, aqueles que se lhe subjugam, fracos, acríticos; a Fé é libertadora, remete para a Divindade, a Religião desconhece os caminhos da individualidade.

Os povos crescem em valores, enfatizam-nos na complexidade histórica das épocas charneira para as suas mudanças; com tudo o que os caracteriza, fez deles lições. Por todo o lado, impõem-se os símbolos, as lutas que os envolveram. Podemos dizer que o mundo é mesmo assim? O tic-tac do relógio existêncial, que nos faz lembrar que o passado vai-se enterrando, dá novos tempos ao tempo. A Religião tem que enterrar as velharias. Já não há herdeiros e tradições porque a Democracia impõe-se como modernidade na partilha de valores em que a cidadania é o mais importante. Religião nâo pode significar colisão.

A Religião discute-se, quando desvalora a Vida, quando pretende sobrepor-se aos Direitos Humanos, desvalorando-os; quando combate a Liberdade em todos os seus aspectos; quando prega o impraticável; quando os seus representantes não dão exemplo aos fiéis. A Fé é uma graça suprema, é uma força que emana da alma e faz ter coragem para enfrentar o dia que nasce, mas ela é, principal e inevitavelmente, um sopro de Amor para com todo o ser-vivo.

Um valor supremo, porém, nos era transmitido na catequese: se Deus nos deu a vida, só Ele no-la pode tirar, porque a Vida é o Divino dentro de nós. As religiões não podem manipular a fé, rumando contra a vida. Somos todos irmãos e é como irmãos que temos que aprender a viver, num mundo que chega e sobra para todos. Quando a Religião perceber isto, confundir-se-à com a Fé, e nessa altura será outra coisa, não importa o quê porque será, com toda certeza, uma coisa muito boa.

A grande questão, a saber, o que é a salvação, vamos salvar-nos do quê, de que devemos fugir para entrar no Reino de Deus, o que é assim tão temeroso e forte que nos pode barrar a sua entrada, não é aflorado.

Todas são correntes pedagógicas, o que é de revelar, mas ensinaram mediante uma adesão cega aos seus princípios subjugadores. É louvável ensinar a ler e a escrever, se com isso se ensinar a pensar; ensinar Ciências Naturais é extraordinário, desde que seja feita a destrinça entre a Criação segundo o Génesis e a Criação segundo a Ciência; a Arca de Noé e a Evolução das Espécies; a natural extinção de espécies e o surgimento de outras; o tempo de existência da Terra, etc.; ensinar a diferença entre a explicação científica e a proclamação bíblica.

O sabe tudo religioso não pode ser um substituto do pouco saber da Ciência, que rejeita o não provado, nem o colocar de alguma questão fora do ram-ram estupificador dos bonzinhos, dos pobrezinhos e dos aleijadinhos ser uma tentação do demónio, o a riqueza fonte de vícios, o conforto luxo pecador.

Tudo isto perdurou, numa sociedade que cresce tecnologicamente a um ritmo avassalador, com a Ciência a impor a força da Razão, num ambiente de liberdade sexual, onde o prazer é partilhado e não mais a subjugação de um sexo perante o outro, numa luta sem tréguas, ainda, pela laicização do Estado, o grande cavalo de batalha das democracias ocidentais.

Se o religioso não arrepiar caminho, não abandonar a arrogância, não se empenhar na modernidade, se rejeitar que vivemos num mundo de diferentes, pluralista, multicor, iremos todos desaparecer absorvidos pela opressão, pelo terror e pelo impulso dos instintos; mas antes, porém, seremos levados, inevitavelmente, à loucura, na luta instintiva pela sobrevivência em vez de na procura da santidade na prática virtuosa do Bem. Somos todos hindus, muçulmanos, judeus e cristãos. Ora nascemos num lado, ora no outro do planeta, porque a Fé é transversal a todos. Se a Religião não começar a ensinar a amar, e rapidamente, estaremos perdidos. Que Deus tenha piedade de nós. 


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Algumas semelhanças entre momentos atuais da FEB e fatos de sua história ocorridos há cerca de 100 anos - Jorge Hessen




   





A expressão historia magistra vitae est é uma expressão latina cuja origem é atribuída a Cícero (106-43 a.C), político e cônsul na Roma Antiga, sugerindo que a “história é a mestra da vida”, isto é, transmitindo a ideia de que o estudo do passado deve servir de lição para o futuro. Nesse sentido, diante dos fatos ocorridos na Federação Espírita Brasileira, desde março de 2015 até o presente, relembra-se aqui alguns episódios transcorridos na mesma instituição, há cerca de um século atrás. A partir dessa noção de que a “história é a mestra da vida”, acredita-se que os fatos ocorridos na gestão de Leopoldo Cirne (1870-1841), entre 1900 e 1913, assim como os momentos que se seguiram à sua não reeleição em 1913, possam fornecer elementos para reflexão dos espíritas, neste momento sério e complicado do movimento espírita no Brasil.

Para sintetizar alguns aspectos ligados à figura de Leopoldo Cirne, enquanto trabalhador espírita vinculado à FEB, optou-se por transcrever trechos constantes na Wikipédia:




Tornou-se espírita no Rio de Janeiro, em 1894, filiando-se à Federação Espírita Brasileira (FEB). Naquela instituição conheceu Bezerra de Menezes, tendo sido um dos que instaram a que o referido Bezerra assumisse a presidência da FEB. [...] Em 1897 Cirne compreendeu que a união do movimento espírita deveria estar acima de partidos. No ano seguinte (1898) tornou-se vice-presidente da FEB, vindo a assumir a presidência em 1900, com o falecimento de Bezerra de Menezes.

Em 1902 renovou os seus estatutos, instituindo o estudo das obras completas de Allan Kardec como referência básica daquela instituição, e tendo o cuidado de retirar daquele diploma a paridade que Roustaing tinha com Kardec nos estatutos anteriores. Embora Cirne fosse "roustaingista", acreditava que a divulgação desses conceitos na FEB era motivo de cisão no Movimento Espírita brasileiro. Esta atitude causou desagrado em alguns membros da FEB.

Em 1904 promoveu o I Congresso Espírita, em homenagem ao centenário do nascimento de Kardec, tendo contado com a participação de mais de 2000 pessoas. [...] Ainda em sua gestão, iniciou-se a construção de uma sede própria para a FEB, inaugurada em 10 de dezembro de 1911.

Cirne se esforçou para implantar a “Escola de Médiuns” na FEB. Esta visava a educação da mediunidade, através do estudo sistematizado de “O Livro dos Médiuns”, uma vez que, até então, os médiuns em geral não possuíam conhecimentos doutrinários. Cirne procurava assim atender a mensagem que Kardec havia enviado em 1889 aos espíritas brasileiros, onde esse pedido era formulado. Foi, entretanto, incompreendido à época, uma vez que os médiuns da FEB não foram receptivos ao projeto da escola. Por esse motivo, e ainda diante da resistência do setor de "Assistência aos Necessitados" da casa, que não concordavam com as inovações propostas, Cirne perdeu a eleição para a presidência em 1913, retirando-se da instituição.

À época, o seu afastamento voluntário da FEB foi objeto de críticas entre os espíritas, uma vez que Cirne havia sido discípulo de Bezerra de Menezes e que apenas desejava implementar as orientações de Kardec ao movimento espírita brasileiro.

Os anos seguintes foram, entretanto, muito produtivos para Cirne [...]. Em 1935, veio a público o polêmico “Anticristo, Senhor do Mundo”, obra em que Cirne, como um estudioso e crítico do movimento espírita no país, declara que “influências maléficas” se apossaram do Movimento Espírita. A sua análise é impiedosa, rigorosa e plenamente demonstrada por fatos. O subtítulo da obra – “O espiritismo em falência” –, revela que Cirne no final de sua vida, considerava o Movimento Espírita desviado de seus princípios originais. Essa visão apoiava-se na percepção das fragilidades da liderança da FEB, da escassez de bons médiuns no movimento, na fraca qualidade dos estudos nos centros espíritas, e na falta de implantação da Escola de Médiuns, passados 46 anos da recomendação de Kardec.

Conforme explicou o Espírito Erasto, no item 10 do capítulo XXI de O Evangelho segundo o Espiritismo:

Os falsos profetas não se encontram unicamente entre os encarnados. Há-os também, e em muito maior número, entre os Espíritos orgulhosos que, aparentando amor e caridade, semeiam a desunião e retardam a obra de emancipação da Humanidade, lançando-lhe de través seus sistemas absurdos, depois de terem feito que seus médiuns os aceitem. E, para melhor fascinarem aqueles a quem desejam iludir, para darem mais peso às suas teorias, se apropriam sem escrúpulo de nomes que só com muito respeito os homens pronunciam.

São eles que espalham o fermento dos antagonismos entre os grupos, que os impelem a isolarem-se uns dos outros e a olharem-se com prevenção. Isso por si só bastaria para os desmascarar, pois, procedendo assim, são os primeiros a dar o mais formal desmentido às suas pretensões.Cegos, portanto, são os homens que se deixam cair em tão grosseiro embuste.

Sob essa perspectiva, seguem abaixo, algumas páginas (p. 255-278) da obra “Anticristo, Senhor do Mundo: o Espiritismo em falência – a obra cristã e o poder das trevas”, nas quais Leopoldo Cirne relatou a sua experiência, desde o momento em que assumiu a presidência da FEB, em função do desencarne de Bezerra de Menezes, em 1900, assim como os momentos que se seguiram à sua saída da presidência dessa instituição.































terça-feira, 20 de setembro de 2016

KARDEC E OS “PRESENTES DE GREGOS” AMEAÇADORES - Jorge Hessen




Jorge Hessen

Brasília-DF


Há muitas admissões inaceitáveis no Movimento Espírita Brasileiro em torno de questões como roustanguismo (este o mais ameaçador), ubaldismos, ramatisismos, “datas limites”e tantos outros assuntos, infiltrados em nossos meios como verdadeiros presentes de grego ou “Cavalos de Troia”, visando despedaçar Kardec no Brasil. 

Promovem-se, nas tribunas, certos shows personalíssimos protagonizados por “ilustres” oradores, alguns “doutores” que sequer abrem mão da arrogante distinção do “Dr”. antes dos próprios nomes. Outros se arremessam nos trabalhos assistencialistas, visando galgarem espaços no teatro da política partidária. 

Os Bons Espíritos nos recomendam resguardar os ensinamentos de Allan Kardec, seja pelo exemplo diário da fraternidade, seja pelo bom ânimo do debate superior. É imprescindível que preservemos os princípios doutrinários com simplicidade (sem falsas modéstias) e dedicação (sem afetação), sem inflexibilidade, sem radicalismos, mas também sem consentimentos contraditórios. 

Muitos leitores têm escrito para mim, insistindo na pergunta se apometria é Espiritismo. Informo-lhes, frequentemente, que a teoria e a prática da técnica apométrica (e suas regras) estão em pleno desacordo com os princípios doutrinários codificados por Allan Kardec. Desta forma, não basta se afirmar "espírita", nem, tampouco, se dizer "médium de qualidade", se essa prática não for exercida conforme preceitua a Codificação Espírita. 

Por subidas razões, devemos estar atentos às impertinências desses ideólogos, dos propagadores das terapias inócuas, que pensam revolucionar o mundo da "cura espiritual". Até porque, a cura das obsessões não se consegue por um simples toque de mágica, de uma hora para outra, mas é, quase sempre, a longo prazo, não tão rápida como se imagina, dependendo de vários fatores, principalmente, da renovação íntima do obsedado. 

Como se não bastasse, ainda, me indagam sempre sobre uma tal "desobsessão por corrente magnética". Isso mesmo! Desobsessão!!! Explico que a teoria e a prática de tal técnica (e suas normas) estão em total discrepância com os princípios Espíritas. O uso de energia para afastar obsessores, sem a necessária transformação moral (reforma íntima), indispensável à libertação real dos envolvidos nos dramas obsessivos, contradiz os princípios básicos do Espiritismo, pois, o simples “afastamento” dos obsessores não resolve a obsessão. 

Historicamente o Cristianismo, com a pureza do Evangelho e a simplicidade da organização funcional dos primeiros núcleos cristãos, foi conquistando lenta e seguramente a sociedade de sua época. Porém, com o decorrer do tempo, sofreu uma expressiva deterioração ideológica. Corrompeu-se, por força das práticas indesejáveis ao plano de Jesus. 

Atualmente, apesar das advertências dos Benfeitores e do próprio Kardec, quanto aos períodos históricos e tendências do movimento, os espíritas (titubeantes) insistem em cometer os mesmos erros do passado. Confrades nossos, não conseguindo se adaptar ao Espiritismo, e, conseqüentemente, não compreendendo e não vivenciando suas verdades, vão, aos poucos, adaptando o Espiritismo às suas alucinações, aos seus desvios morais, adulterando os textos das Obras Básicas, trazendo, para os centros espíritas, práticas inúteis consoante suas prioridades místicas. 

Falta-lhes, no mínimo, o estudo sério da Codificação Rivailina. Tudo isso é reflexo natural da invigilância febiana que colocou Roustaing em primeiro plano e Kardec como coadjuvante e sempre preterido na pelas ilusões do roustanguismo. 

Sobre esse fato, recomendo leitura do surpreendente livro “Consciência Espírita” de autoria de Gélio Lacerda da Silva, ex-presidente da Federação Espírita do Estado do Espírito Santo, conforme pode ser conferido através do link http://leitoresdojorgehessen.blogspot.
com.br/2016/09/conscientizacao-espirita-feb.html

Mas como consertar esse processo? Como (re)agir, ante os espíritas mal orientados, com dirigentes e federativas irresolutas, com fanatismos roustanguistas, médiuns obsidiados? Enfim, como atuar, diante dos espíritas indecisos e sediciosos? Seria interessante a prática do "lavo as mãos" ou a retórica do "laissez faire", "laissez aller", "laissez passer"? Devemos deixar que os próprios grupos espíritas usem e abusem do livre arbítrio para, por fim, aprenderem a fazer escolhas corretas e adequadas às suas necessidades? 

Não nos esqueçamos de que os inimigos, em potencial, do Espiritismo estão disfarçados entre os próprios espíritas. Identificamos como o mais perigoso “Cavalo de Troia” no M.E.B. os Quatro Evangelhos de J.B. Roustaing. O Espiritismo deve ser divulgado conforme foi apresentado por Allan Kardec, sem adaptações nem acomodações de conveniência em vãs tentativas de conseguir-se adeptos. 

É a Doutrina que se fundamenta na razão, e, por isso mesmo, não se compadece com as extravagâncias daqueles que, por meio sub-reptício, em tentando fazer impor seus misticismos acabam por macular a pureza originária da nossa Doutrina Espírita. 

Criar desvios doutrinários, atraindo incautos e ignorantes, causa, sem dúvida, perturbações que poderiam, indubitavelmente, ser evitadas, se houvesse, por parte dos dirigentes, maior rigor na direção dos estudos das obras codificadas por Allan Kardec , mormente os trabalhos das federativas se movimentassem nesse sentido. Qualquer enxerto, por mais delicado se apresente para ser aceito, fere-lhe a integridade porque ele [o Espiritismo] é um bloco monolítico, que não dispõe de espaço para adaptações, nem acréscimos que difiram da sua estrutura básica.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Da organização no Centro Espírita




Na administração da Casa Espírita não há sacerdócio organizado, o que há é um grupo de diretores eleitos legalmente pelos sócios da Instituição, para representá-la e dirigi-la, por um período estipulado pelos seus estatutos, sem, entretanto, receberem pelos cargos que ocupam nenhum salário ou benefício, a não ser os seus direitos e deveres, como qualquer outro sócio.

Segundo princípios morais que regem a Doutrina dos Espíritos, o que deve prevalecer para a escolha da diretoria são os conceitos “intelecto-moral”, esperando-se que cada membro que venha a assumir o cargo, esteja imbuído de boa vontade, amor ao próximo e interesse na divulgação do Espiritismo.

Há um adágio popular: “Faça felizes os que estão próximos e os distantes se aproximarão”. No caso, “fazer felizes os que estão próximos”, seria a diretoria não fugir aos princípios codificados por Allan Kardec, dirigir sem autoritarismo, usando o poder integrativo oriundo da convivência pautada em princípios de sinceridade, igualdade e fraternidade.  Assim, os “próximos se sentiriam felizes” e os “distantes se aproximariam” porque perceberiam a prática da verdadeira justiça, do trabalho dignificante, além de sentirem um clima de honestidade e camaradagem, ou seja, o verdadeiro princípio Espírita prevalecendo, em contrapartida à posição egoísta que poderia deixar “infelizes os próximos”, afastando-os, e não “atrair os distantes”, deixando a Instituição sem sucessores.

Que possamos atentar para estas particularidades Cristãs, a fim de que o Centro Espírita não fique entregue ao mau exemplo, pois, desta maneira não representaria  a verdadeira moral que o Espiritismo propaga.

Cachoeiro de Itapemirim,  ES
Domingos Cocco
Rua Raul Sampaio Cocco n° 30
Antiga Neca Bongosto  – Bairro Sumaré
Telefone: (028) – 3522-4053  - CEP 29304-506
Cachoeiro de Itapemirim – Estado do Espírito Santo

domingo, 18 de setembro de 2016

Velho Chico

Luiz Carlos Formiga

O resultado de necropsia foi asfixia mecânica por afogamento. Morreu dia 15 de setembro de 2016, aos 54 anos o ator protagonista da novela “Velho Chico”, Domingos Montagner.
O psiquiatra Augusto Jorge Cury diz que a vida física desaparece, se descaracteriza, mas a vida psicológica clama pela continuidade da existência.  A morte da consciência humana é inaceitável. A mente humana acha inconcebível a ruptura do pulsar da vida e insuportável a  inexistência da consciência. O pensamento de Jesus referente ao fim da existência humana tinha uma ousadia e complexidade impressionantes. Ele discursava sobre a imortalidade com uma segurança incrível. (1)
Lembremos que depois do discurso Ele passou, após a crucificação, a desequilibrar a incredulidade através de aulas práticas.
Diz ainda, o psiquiatra, que a maioria dos seres humanos nunca procurou compreender algumas implicações psicológicas e filosóficas da morte, que a necessidade de uma busca mística, espiritual, não é sinal de fraqueza intelectual, de fragilidade da inteligência humana. Na realidade expressa um desejo vital de continuidade do espetáculo da vida, sendo enfim um sinal de grandeza intelectual.
Este autor lembra o ateu declarado, pensador brasileiro, Darcy Ribeiro que em momentos antes de sua morte pediu aos seus íntimos que lhes dessem um pouco de fé. Isso não significou um sinal de fraqueza, pelo contrário. Esse momento refletia a necessidade universal e incontida de continuidade do espetáculo da vida.
O desejo de eternidade, de transcender o caos da morte, é inerente ao ser humano, não é fruto de uma cultura. Mesmo uma pessoa que pensa ou comete atos de suicídio não tem consciência da morte como fim da vida, à semelhança do que ocorre no início do período da sua infância. Ela não quer matar a vida, mas destruir a dor emocional, a angústia, o desespero que abate suas emoções.(2)
O desejo de superação da morte é irrefreável. Mas, como entender o pós-morte?  Aqui, a ciência biomédica se cala, pois pode fazer muito por um espírito, no corpo, mas não pode fazer absolutamente nada depois da morte. Jesus, por ser espírito superior, tinha um estilo de vida que estava além do limite de tempo e espaço.  Poucos foram aqueles puderam se aproximar, mesmo que modestamente, deste nível do existir. Como poderia Pilatos compreender o que Jesus argumentava durante sua oitiva.
Como pensavam os intelectuais do tempo de Jesus?
Fariseus, Saduceus, Samaritanos e Essênios acreditavam em Deus, mas discordavam em relação à prática religiosa.
Cury lembra que o homem possui uma necessidade intrínseca de procurar por Deus, de criar religiões e de produzir sistemas filosóficos metafísicos. Isto surge por necessidade de superar a morte e explicar a si mesmo o mundo, o passado, o futuro, os mistérios da existência.
Jesus proclamava que sua vida estava além dos limites do tempo e do espaço, mas a nossa ciência trabalha dentro dos intervalos do tempo. Como estudar fenômenos que estão além desses limites.
Como Pilatos, um romano, politeísta, poderia entender alguém adiante do seu tempo?
Jesus não pressionava ninguém, não impunha suas ideias, era contra o autoritarismo e apenas fazia convites, procurando abrir as janelas da inteligência do próximo.
Não compreendíamos e ainda hoje perguntamos qual a natureza de Jesus?
No século XIX Allan Kardec se debruça sobre esta questão.  Diz-nos no livro A Gênese:
Pelos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade confia somente a seus mensageiros diretos, para cumprimento de seus desígnios. Mesmo sem supor que ele fosse o próprio Deus, mas unicamente um enviado de Deus para transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um profeta, porquanto seria um Messias divino.
Como homem, Jesus tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível
Dizem que de tão poderoso fazia milagres. Kardec, no mesmo livro, cap XV, item 63, diz que o maior milagre que Ele realizou, o que verdadeiramente atesta a sua superioridade, foi a revolução que seus ensinos produziram no mundo, malgrado a exiguidade dos seus meios de ação.
Imaginemos os poderosos que morriam de medo de serem destituídos dos seus “tronos” terrenos. Quanto mais Jesus crescia diante do povo, mais aumentava o desejo de eliminá-lo.
Tudo aconteceu!
Jesus foi traído, preso e levado às autoridades judaicas. Mas, o Sinédrio tinha poderes limitados e por esse motivo Jesus foi entregue ao Procurador Militar da Judéia – Pôncios Pilatos, então governador. Hoje estaríamos reivindicando o direito ao contraditório. O devido processo legal e a ampla defesa. Sem esquecer os direitos humanos e os recursos aos supremos tribunais.
Naqueles dias, só Pilatos poderia proferir a sentença. Pena de morte.
 No entanto, Pilatos não via no Mestre nenhuma culpa. Seria aquele homem um revolucionário subversivo?  O que fazer? Como se resguardar do julgamento da história e principalmente de seus superiores imediatos? Resolveu então arrolar uma testemunha e ainda assim de sua inteira confiança.
Conta-nos Emmanuel, em Há Dois Mil Anos que o governador havia sido advertido, pela sua esposa Claudia, que não se envolvesse na morte de Jesus. Então ele manda chamar Públio Lentulus, o senador romano e lhe pede orientação sobre o perfil de Jesus. O senador lhe diz que o Mestre não era um revolucionário e que nunca ninguém o vira falar contra os poderes constituídos em Roma.
Os judeus insistiam, o povo clamava. Pilatos então resolve partir para o interrogatório e convoca Jesus. Leva-O para o interior do Pretório.
Tu és o Reino dos Judeus?
Existe uma frase de Jesus que surpreende. Ele pergunta de volta a Pilatos: Falas assim por ti mesmo ou os outros te disseram isso de mim?
Pilatos reage: como?Por acaso sou Judeu? Eles te entregaram a mim. Que fizeste?
Jesus ignora a pergunta e responde:  O meu Reino não é deste mundo; se o meu Reino fosse deste mundo, certo que os meus ministros haviam de pelejar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas por agora o meu Reino não é daqui.
 Disse-lhe então Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes, que eu sou rei. Eu não nasci nem vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade; todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (João, cap. XVIII, 33-37)
Pilatos insiste e pergunta de novo: O que é a verdade?
Jesus nada responde.
Diante daquele homem incrivelmente livre, embora “algemado”, altivo e sem nenhum traço de revolta ou de angustia, O Juiz, Pilatos, recua. Sabia-O inocente. Sai com Ele e diz a todos: não encontro nele dolo ou culpa.  
  Mas, o povo ensandecido grita. O Governador oferece o indulto, mas os poderosos o amedrontam. Por fim, Pilatos lava as mãos. O resto todos nós sabemos.
O meu Reino não é deste mundo.
No Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo 2, lemos que por estas palavras, Jesus se refere claramente à vida futura, que ele apresenta, em todas as circunstâncias, como o fim a que se destina a humanidade, e como devendo ser o objeto das principais preocupações do  homem sobre a terra. Todas as suas máximas se referem a esse grande princípio. Sem a vida futura a maior parte dos seus preceitos de moral não teriam nenhuma razão de ser. É por isso que os que não creem na vida futura, pensando que ele apenas falava da vida presente, não os compreendem ou os acham pueris.
Em síntese, a vida futura é o delineamento essencial de todo o ensinamento de Jesus. Sua trajetória revela para a humanidade a certeza da vida espiritual aquela que aguarda a todos. O Reino que Ele nos trouxe deve ser erguido no Templo da Alma, na consciência do homem de Bem.
Por isso, embora tristes, com o prematuro desencarne do nosso ator no “Velho Chico”, estamos também resignados diante dos desígnios de Deus. Confiantes de que sua família estará amparada por todos que lhe reconhecem a condição de “Ator do Bem” e que ele hoje renasce para a vida espiritual, feliz por ter deixado uma boa resposta à pergunta que pode incomodar: “se você não existisse, que falta faria?” “Qual é a tua obra?”
Muitos séculos depois de Jesus oferecer seu testemunho de imortalidade, hoje temos a posse, com o advento da Doutrina Espírita, da chave que abre as portas para entendermos a resposta de Jesus ao Governador dos Militares da Judéia.
Hoje podemos responder com relativa tranquilidade a questões: Quem sou? Por que sofro? Qual o objetivo da minha vida? Para onde vou após a morte do meu corpo no “Velho Chico”?
Por isso disse Jesus: se disserem a vós o Reino de Deus está aqui ou está ali, não acrediteis. Ele está “dentro” de vós.
O Reino é conquista íntima, particular. O Reino de Jesus, ainda não é aqui.
Na sua despedida Jesus nos deixou um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei!
Domingos Montagner, o ator de “Velho Chico”, viveu na época, em que o nosso Chico ofereceu evidências sugestivas da imortalidade da alma, psicografando cartas de missivistas vindos do além para conforto dos amores, que permaneceram na Terra em extenuante dor de saudade.
Velho Chico! Medalha de ouro! (3)
Como foram abençoadas as cartas que você psicografou (4).
Por isso, por mais que eu sofra, mesmo que eu chore, obrigado Senhor.
Obrigado, Senhor pela esperança.
Obrigado, Senhor (5).

Referências
(1) Cury, A.J. Análise da Inteligência do Cristo. O Mestre dos Mestres. Editora Academia de Inteligência, 1999. São Paulo. 232 p.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Conscientização Espírita" - A FEB ROUSTAINGUISTA X ALLAN KARDEC (NO BRASIL)

"Conscientização Espírita" -  A FEB ROUSTAINGUISTA  X ALLAN KARDEC (NO BRASIL)