.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

EQUAÇÃO SUPREMA DO UNIVERSO

 
Fernando Rosemberg
Desde tempos longínquos, respeitáveis incrédulos, e materialistas de toda ordem, pretendem retirar Deus da Ordem da Criação; ou seja, querem expressar que o Universo Astronômico (Un.Ast.) é feito apenas e tão somente de Matéria Estelar (Mt.Est.), o que retira, pois, Deus de Sua Criação, e que Tudo, afinal, se resume na seguinte equação matemática:

[( Mt.Est. ) = ( Un.Ast. )]

Ou, noutros termos, o Universo Astronômico é feito de Matéria Estelar, e, vice versa: a Matéria Estelar é o conteúdo mesmo do Universo Astronômico. E, mais ainda, insistem tais céticos que Tudo surge do Nada, ou seja: a Ordem Matemática do Universo Astronômico é fruto do Nada, ou mesmo: do Acaso, que, cá pra nós, trata-se de um Nada, ou, de um Acaso mui inteligente, capaz de engendrar coisas que superam de muito a inteligência humana; mas, se querem pensar como pensam é direito que lhes assiste, pois que, afinal, somos livres pensadores e, como tal, cada qual pensa como quer pensar, refletir, raciocinar.

E, pois, para o ceticismo humano, aquela sua dedução matemática se transmuda para o seu Nadificado Criador, no caso, o Nada, e temos:

[( Nada ) = ( Un.Ast. – Mt.Est. )]

Todavia, nós, os religiosos da filosofia espírita, e que, por conseguinte, admitem a existência de um Criador atuando como a Inteligência Suprema do Universo, nós, e também de modo matemático, adotamos para aquela dedução cética, a seguinte e lógica postura cósmica de uma espécie de Fórmula Suprema do Universo extraída a partir mesmo daquela dedução materialista:

Fórmula Suprema do Universo:

[( Deus ) = ( Un.Ast. – Mt.Est. )]

Ou seja: se retirarmos a Matéria Estelar (M.Est.) do Universo físico e astronômico (Un.Ast.), teremos, como resultado, não o Nada, e sim: Deus, que É o Criador, o Espírito Supremo, ou ainda: o Pai, na felicíssima sentença do Mestre Nazareno; ou, ainda, pela Revelação Espírita: a Inteligência Suprema do Universo; que, repetindo em termos matemáticos, vislumbramos:

[( Deus ) = ( Inteligência Suprema do Universo )]

Ou, doutro modo, e, mais simplesmente ainda:

[( Deus ) = ( Deus )]

Onde e quando, Sendo distinto de Tudo, e, Sendo Único tal como Ele É, deve-se inferir que Deus, de modo matemático, só pode ser igual a Si mesmo, sendo Infinito, conquanto, em Sua Manifestação, estando em mim, em você, e, em tudo o mais. Ora, o Espiritismo, com Kardec, ministra que:

“Deus é a Suprema e Soberana Inteligência. A inteligência do homem é limitada, uma vez que não se pode nem fazer e nem compreender tudo o que existe; a de Deus, abarcando o infinito, deve ser Infinita”. (Vide: “A Gênese” – Allan Kardec – 1868 - Ide).

E conclui Kardec afirmando logo adiante que Deus:

-É Único,
-Eterno,
-Imutável,
-Imaterial,
-Todo Poderoso,
-Soberanamente Justo e Bom, e,
-Infinitamente Perfeito.

Assim: Deus, sendo Um, É também Infinito como se pode constatar, mais uma vez, nesta outra passagem do Codificador que inclui, também, ensinos do Nazareno:

“Achamo-nos, então, constantemente, em presença da Divindade; nenhuma das nossas ações lhe podemos subtrair ao olhar; o nosso pensamento está em contacto ininterrupto com o Seu pensamento, havendo, pois, razão para dizer-se que Deus vê os mais profundos refolhos do nosso coração. Estamos n’Ele, como Ele está em nós, segundo a palavra do Cristo”. (Opus Cit.)

E, se a referida Equação Suprema do Universo, em sua matemática expressão que, por sua vez, envolve uma lógica e evidente retórica filosófica; se referida Equação não é coisa convincente - como sei que não é para os descrentes de todos os tempos - o fato é que a ideia de Deus na humanidade está em todos os seus períodos evolucionários, do selvagem ao homem moderno que sabem, de sua Consciência mesma, de um Ente Criador, pois que: se não damos existência a nós próprios, como Espírito e como homem, então, dita existência - sendo um efeito - implica num Ente Criador que, chamem como queiram chamar, é o Ente Causador de Tudo, do átomo às estrelas, do vírus ao biótipo vegetal, e deste ao animal, ao Homem, ao Arcanjo sideral.

Grande e Forte Abraço:

Fernando Rosemberg Patrocínio:
Fundador de Casa Espírita Cristã, Coordenador de Estudos Doutrinários, Articulista, Palestrante e Escritor de quatro dezenas de e.Books gratuitos em seu blog.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Movimento espírita Pós Kardec - episódios e declínio doutrinário na França (Jorge Hessen)

Pierre-Gaëtan Leymarie - "Coveiro de Kardec"


Jorge Hessen


A propósito do declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, inicialmente entronizamos a figura de Ermance Dufaux, ela que conheceu Allan Kardec no dia 18 de abril de 1857, ao comparecer à pequena recepção festiva organizada pelo Codificador em sua residência, com a finalidade de comemorar o lançamento de O Livro dos Espíritos. No final dessa reunião, Dufaux psicografou bela página ditada pelo Espírito São Luís, que se tornaria, a partir de então, o diretor espiritual dos trabalhos experimentais de Allan Kardec.
No final de 1857, Dufaux receberia outra importante mensagem, estimulando o Codificador a prosseguir no ideal de lançar mensalmente um periódico espírita. Com efeito, no início de 1858, Kardec laçou a Revue Spirite, surgindo assim a matriz da propaganda da Terceira Revelação e o embrião do Movimento Espírita Mundial.
Na França o nome de espíritas foi gradualmente abatido ao longo dos séculos XIX e XX. Para isso, ocorreram alguns fatos que explicam: como a desencarnação, em 1869, de Allan Kardec, bem como também a mudança de regime político, porquanto após a queda do Segundo Império, a República é proclamada em 1871.
Momentos antes, porém, em 19 de julho de 1870, cerca de quinze meses após a desencarnação de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia. Em face disso, a divulgação espírita sofreu enormes prejuízos, destacando-se que à época, como se não bastasse a fatídica guerra franco-prussiana, de maneira simultânea também havia uma onda de pensamentos oriundos da Revolução Francesa, intensificando a ideia do laicismo, proibindo-se, portanto, qualquer relação entre as entidades estatais com “religião”.
Diante de outras “pistas”
Apontaremos algumas outras “pistas” para opinar sobre o  declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec. Em princípio, cremos que os legados históricos do Espiritismo sofreram as implicações danosas, por terem sido tratados como bens de família, estabelecendo espólios e, por conseguinte, sujeitando a herdeiros. Tudo sugere que Kardec pretendia evitar isso ao idealizar uma sociedade impessoal, mas não teve tempo. Faleceu antes de concretizar seus planos e, consequentemente tudo o que pertencia à Codificação Espírita (Sociedade parisiense de estudos espiritas, livros, revistas, correspondências, documentos etc.) tornaram-se herança da viúva Amélie Gabrielle Boudet.
De início, Boudet se propôs administrar o projeto do esposo; mas, inexplicavelmente, deliberou por confiar o legado nas mãos de Pierre-Gaëtan Leymarie, que organizou a (não espírita) Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, que depois se transformou na “Sociedade Científica do Espiritismo”Mas Boudet sugeriu a criação da “Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec”. [1] Após a desencarnação de Amélie Boudet, em 1883, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos espólios e dos documentos de Kardec, na condição de único remanescente da tal sociedade. Uma parte, dos documentos originais do Codificador foi sendo publicada por Leymarie na “Revue Spirite”, e outra parte transformou na inquietante “Obras Póstumas”.
O declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, na minha percepção e de alguns outros pesquisadores, se deve precipuamente à imaturidade doutrinária de Pierre-Gaëtan Leymarie que teve o encargo, portanto, de cuidar da propagação do Espiritismo após a desencarnação do mestre de Lyon. Neste sentido, parece-nos que administrou “inocentemente” uma razoável quantidade financeira que lhe foi entregue por Amélie Gabrielle Boudet para o custeio da divulgação das obras espíritas. 
Os expressivos recursos econômicos deveriam ser empregados na propaganda criteriosa do Espiritismo. Mas isso não foi claramente realizado. Motivo pelo qual, provavelmente em 1882, Gabrielle Boudet, inteiramente descontente, convidou à sua casa Gabriel  Delanne e esposa, a fim de propor a criação do periódico "Le Spiritisme", para que o Movimento Espírita não dependesse apenas da já agonizante “Revue Spirite" dirigida por Leymarie.
A liderança do Movimento Espírita poderia ter sido compartilhada entre Leymarie e Gabrielle Boudet, mas, a rigor, Boudet ficou historicamente em plano secundário, numa condição de humilhante subalternidade e gradualmente Leymarie foi afastando Amélie Gabrielle das decisões. [2]
Leymarie ,  protagonista para o desmoronamento doutrinário
Leymarie imergiu na invigilância, gerando o desfalecimento do Movimento Espírita já quase totalmente desintegrado. Cremos que a sucessão de Kardec deveria caber a Alexandre Delanne, até porque era vizinho e amigo de longa data da família Kardec, jamais a Leymarie.
Delanne viajava bastante, esteve nas cidades onde existiam centros de divulgação espírita como, Lyon, Bordeaux, Bruxelas entre outros locais que visitava com certa frequência os centros espíritas. Concebemos que Delanne tenha sido bloqueado "politicamente" por Leymarie. Sim, talvez o invigilante Leymarie tenha articulado nos “bastidores” com Boudet a fim de “puxar o tapete” do pai de Gabriel Delanne.
Mas, quem era Leymarie? Era um praticante de Teosofia de Blavatsky, defendia as alucinações de Roustaing [3] e era apaixonado pela maçonaria.
Importa mencionar que quando Kardec desencarnou Gabriel Delanne tinha apenas 12 anos de idade e Léon Denis tinha 23 anos e serviria o exército na guerra franco-prussiana de 1870 e, apesar de já espírita, Denis ainda não estava satisfatoriamente integrado ao Movimento Espírita. Desta forma, ambos, Delanne e Denis, passaram a exercer maior influência no Movimento Espírita somente por volta da década 1890 e, principalmente, a partir de 1900, momento em que se projetaram mais.
A França enfrentou três grandes guerras (a “franco-prussiana” de 1870 e as duas grandes guerras mundiais), o que, sem dúvida, dificultou muito a propagação do Espiritismo. Na Primeira Guerra Mundial muitos grupos e sociedades espíritas tiveram que ser fechados. Sob esse clima houve brutal sufocação do Movimento Espírita em francês.
Como se não bastasse, no contexto dos idos de 1910, podemos pontuar as propostas filosóficas materialistas, abrindo espaço para o niilismo, existencialismo, pessimismo e ceticismo extremos, enfim - os embates ideológicos. Portanto, as guerras foram categóricas para o declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, mas antes delas, como vimos, a liderança do movimento sofreu tragicamente, principalmente pela falta de lucidez doutrinária, especialmente veiculada pela "Revue Spirite", sob a gerência de Leymarie.
Repetimos que Leymarie foi o protagonista para o desmoronamento doutrinário, por conseguinte muitos espíritas franceses perderam o rumo sob o guante do misticismo imponderado. Para ilustrar, notemos o infame “Processo dos Espíritas”, resultante das reais fraudes reproduzidas por fotógrafos de má fé e publicadas de maneira descuidada por Leymarie na Revue Spirite. Naturalmente esse episódio foi traumático de consequências gravíssimas, ferindo mortalmente o moribundo Movimento Espírita francês.
Nesse caótico quadro de declínio doutrinário há quem assinale outro aspecto especial. Trata-se da questão das excessivas pesquisas científicas em torno dos fenômenos mediúnicos. Havia prioridades nas experimentações laboratoriais com os médiuns. O próprio Gabriel Delanne seguiu esse caminho de pesquisa. Não obstante, Delanne tenha se declarado “arrependido”, numa entrevista concedida ao brasileiro Canuto Abreu, afirmando que a experiência científica não teria sido a sua melhor opção para o revigoramento do Movimento Espírita.
Gabriel Delanne, um depoimento de além-tumba
Sobre isso, André Luiz entrevistou o Delanne no além, notemos: Muitos amigos na Terra são de parecer que os Mensageiros da Espiritualidade Superior deveriam patrocinar mais amplas manifestações da mediunidade de efeitos físicos para benefício dos homens, como sejam materializações e vozes diretas. Que pensa a respeito?
Delanne (Espírito) - “Creio que a mediunidade de efeitos físicos serve à convicção, mas não adianta ao serviço indispensável da renovação espiritual. Os Espíritos Superiores agem acertadamente em lhe podando os surtos e as motivações, para que os homens, nossos irmãos, despertem à luz da Doutrina Espírita, entregando a consciência ao esforço do aprimoramento moral. Devemos estimular os estudos em torno da matéria e da reencarnação, analisar o reino maravilhoso da mente e situar no exercício da mediunidade as obras da fraternidade, da orientação, do consolo e do alívio às múltiplas enfermidades das criaturas terrestres”. [4]
Nos primórdios do século XX houve um surto de crescimento do Movimento Espírita na França até meados da década de 1920, esmaecendo de forma célere quando Denis, Delanne, Gustave Geley e Camille Flammarion desencarnam. Subsequentemente, em 1935, desencarnaria o "Pai da Metapsíquica" e simpatizante do Espiritismo Charles Richet, tudo isso aconteceu momentos antes da Segunda Guerra Mundial, quando da ocupação nazista na França por quase um lustro.
Retornemos mais uma vez a Leymarie. Ele fundou a "Librairie Leymarie Édite-URS" e a dirigiu até 1903, e, com o seu desencarne, o espólio foi herdado (novamente em família!) pela viúva Marina Leymarie que assumiu o comando, e, posteriormente, por seu filho, Paul Leymarie. Este, após um breve espaço de tempo em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, “dono” absoluto dos destinos do Espiritismo até 1914, quando, em função da Primeira Guerra Mundial, abandonou tudo. O que não foi de todo uma catástrofe, pois o Paul Leymarie comercializava até “bolas de cristal” [isso mesmo! “bolas de cristal”] pela Revue Spirite.[5]
Meyer, um mecenas francês
Com a liquidação da "Librairie Spirite", continuou a editoração das obras de Allan Kardec, fazendo do prédio da "Librairie Leymarie" sede da redação da "Revue Spirite", até a fundação da "Maison des Spirites", por Jean Meyer, inaugurada em 25 de novembro de 1923. Antes mesmo de terminar a Primeira Guerra, em 1916, o Jean Meyer, um rico empresário francês, assumiu o combalido Movimento Espírita francês, lembrando que nessa conjuntura ainda estavam encarnados Léon Denis e Gabriel Delanne, que embora sumidades intelectuais e grandes referências doutrinárias; mas “cá para nós”, alguém tinha que cuidar dos “negócios” do movimento.
No contexto Meyer destinou a sua fortuna pela causa do Espiritismo. Ficou com os direitos autorais da Revue Spirite. Criou a Casa dos Espíritas (“Maison des Spirites”), para onde levou o precário material que restou dos documentos e objetos pessoais de Kardec. Este mesmo mecenas fundou o “Instituto de Metapsíquica”, sob o comando inicial do Gustave Geley, e onde foi gerado o “Tratado de Metapsíquica”. O curioso é que Charles Richet dizia que o “Espiritismo era inimigo da ciência”.
La Revue Spirite reunia, nesse tempo, as mais destacadas personalidades do Espiritismo: Gabriel Delanne, Leon Denis, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano, A. Bénezech, Marcel Laurent, M. Cassiopée, General Abaut, Dr. Gustave Geley, Marcel Semezies, Pascal y Matilde Forthuny, Louis Gastin, Henri Sausse, Paul Bodier, Sir. Arthur Conan Doyle, Santoliquido, Rocco, León Chevreuil, Hubert Forestier e outros. Em verdade, Meyer foi uma espécie de “dono” do movimento espírita francês até sua desencarnação em 1931. [6]
Durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu uma desmontagem quase integral do Movimento Espírita francês. Os nazistas ao ocuparem Paris saquearam tudo inclusive Maison Spirites e confiscaram livros, documentos de pesquisa, e outros objetos importantes da própria história do Espiritismo na França.
Que nos diz acerca do Espiritismo, na França? Esquadrinhou André Luiz Ao Espírito Gabriel Delanne. “ Não nos é lícito dizer haja alcançado o nível ideal”.[7] Redarguiu Delanne acrescentando que “legiões de companheiros da obra de Allan Kardec reencarnaram, não só na França, mas igualmente em outros países, notadamente no Brasil, para a sustentação do edifício kardequiano”. [8]
Transposição do movimento espírita mundial
Conjectura-se aqui e algures sobre o translado do Espiritismo para o Brasil. Temos certeza que a transposição da direção do Movimento Espírita mundial, da França para o Brasil, sobreveio após a desencarnação de Léon Denis, no período entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930, portanto, coincidindo com o início da missão mediúnica de Francisco Cândido Xavier.
Desta forma, podemos questionar o desempenho de Bezerra de Menezes como justificadora para tal translado. Até porque, não é difícil comprovar nesse contexto, pois quando Bezerra desencarnou em 1900 a atuação verdadeiramente apostólica de Gabriel Delanne e Léon Denis manteve-se viva por muitas décadas, inclusive durante e após a primeira guerra mundial. [9]
O Movimento Espírita francês voltou a se recuperar com frouxidão por volta dos anos de 1950 e 1960 em razão do regresso à França de alguns cidadãos que residiam no Norte da África (Argélia, Marrocos) e começaram a retornar para a terra de Kardec arriscando remontar o Movimento Espírita.
Encetaram o projeto, todavia com extrema dificuldade, em função do cenário deixado pela Segunda Guerra. Porém, desataque-se que naquela situação começou a haver uma nova fase de interesses e buscas fenomênicas no campo da parapsicologia e da metafísica; por fim, a própria Revue Spirite foi retomada por algumas lideranças a exemplo de Hubert Forestier e André Dumas.

Sepultamento da Revue Spirite
Na década de 1960, Hubert Forestier assume a Revue Spirite e torna-se proprietário que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Forestier desencarna em 1971, deixando o Movimento Espírita francês na penúria. Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. [10] O resto – muito pouco: o nome da Revue e da Societé – ficou nas mãos do Dumas. [11]
André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestígio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da “Revue Spirite” para “Renaitre 2000”, e a Societé para uma tal “sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência”, colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o “espiritismo francês”. [12]
Na verdade, Dumas foi escritor e dirigente espírita francês, presidente da União Espírita Francesa (UEF) e diretor da Revista Espírita na década de 1970. Por muitos anos administrou o legado de Kardec e seus seguidores. No entanto, é mais lembrado (no Brasil) pela mudança do nome desta tradicional instituição espírita, em 1976: União Científica Francofônica para a Investigação Psíquica e o Estudo da Sobrevivência da Alma (USFIPES), em vez de UEF.
Nesse mesmo ano, para desagrado de alguns espíritas brasileiros, a tradicional revista fundada por Kardec deixa de circular. Em seu lugar, Dumas, como citamos acima, lança um periódico denominado o Renaître 2000. Segundo ele, as palavras espírita e Espiritismo se descaracterizaram em seu verdadeiro significado, vinculando-se ao misticismo (roustanguista), ao religiosismo. Por isso a mudança.
O resultado foi a completa marginalização de Dumas e a confusão jurídica com a União Espírita Francesa e Francofônica, fundada por Roger Perez em 1985, pelos direitos da Revista Espírita. Dois anos depois a instituição obtém sentença judicial favorável a Perez e a Revue volta a circular novamente após 12 anos de interrupção.
Apesar de ser lembrado como uma espécie de traidor, um “Judas” da causa espírita, Dumas foi um dirigente e um intelectual espírita importante na história do Espiritismo francês. Sua visão, laica e filosófica, destoava da grande maioria dos espíritas, notadamente os brasileiros, afeitos a concepções religiosas e sectárias, influenciados em demasia pelos cânones roustanguistas da Feb.
Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se “comunicou” no grupo dele, o “Cercle Spirite Allan Kardec”, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. (sic) Ele o tenta até hoje. [13]
Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias africanas, resolveu, certamente com o patrocínio da Feb, retomar as coisas. Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela “Federação Espírita Francesa e Francófona” (já extinta), da qual foi fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI – Conselho Espírita Internacional.
Certamente com Roger Perez houve uma breve intensificação do Movimento Espírita francês, porém, a bem da verdade, nunca se recuperou, pelo menos em Paris. Sabemos que hoje há diferentes núcleos espíritas no interior da França, mas evidentemente sem as características daquelas propostas por Allan Kardec.

Propagação espírita de pessoa a pessoa, de consciência a consciência
O Espírito Delanne não acredita que a Europa (especialmente a França) retomará a direção do movimento espírita no futuro, pois o Velho Continente assemelha-se, atualmente, a vasto campo de guerra ideológica, que está muito longe de terminar. Para o Benfeitor a divulgação espírita terá de efetuar-se de pessoa a pessoa, de consciência a consciência. A verdade a ninguém atinge através da compulsão. A verdade para a alma é semelhante à alfabetização para o cérebro. Um sábio por mais sábio não consegue aprender a ler por nós. (Grifei)
Talvez esse processo de propaganda espírita seja moroso demais para a Humanidade, mas, segundo Delanne, uma obra-prima de arte exige, por vezes, existências e existências para o artista que persegue a condição do gênio. Como acreditar que o esclarecimento ou o aprimoramento do espírito imortal se faça tão-só por afirmações labiais de alguns dias? [14]
Seja no Brasil, seja noutros países, cremos que a pujança da Doutrina dos Espíritos não advirá por meio de um Espiritismo Oficial, hierarquizado, elitista, exorbitantemente místico e mercantilista, porém na propagação paulatina da Terceira Revelação de pessoa a pessoa, de consciência a consciência, de ombro a ombro, sem as grilhetas burocráticas dos institutos oficiais de unificação, que na Terra e especialmente no Brasil vivem e revivem os fragorosos vendavais intransigentes do poder curial.

Notas e Referências bibliográficas:       

[1] CALSONE Adriano. Madame Kardec, SP: Viva Luz Editora, 2017 “Eis que em 18 de outubro de 1873, a Assembleia Geral Anual concordou com a decisão de substituir o polêmico nome, Sociedade Anônima – criação da viúva Kardec –, para o extenso, Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec, anônima e capital variável. Com a nova recriação, sugerida novamente por Amélie, a mesma deixava claro que tudo deveria convergir para a divulgação, propagação e continuação das obras espíritas do marido.”

[2] Idem

[3] P.G. Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente no Rio de Janeiro onde esteve exilado em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

[4] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970

[5] DONHA João. O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado? Disponível em https://palavraluz.wordpress.com/2016/07/17/arquivokardec/ acessado em 16/02/2017

[6] Disponível no portal “AUTORES ESPÍRITAS CLÁSSICOS” http://www.autoresespiritasclassicos.com/autores%20espiritas%20classicos%20%20diversos/Jean%20Meyer/Jean%20Meyer.htm ACESSO 17/02/2017

[7] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970

[8] Idem

[9] MARMO Leonardo Moreira. “Os Problemas enfrentados pelo Movimento Espírita após a morte de Allan Kardec e as atuações de Delanne e Denis”, disponível em http://paespirita.blogspot.com.br/2017/02/os-problemas-enfrentados-pelo-movimento.html avessado em 17/02/2017

[10] Domínio público, no Direito da Propriedade Intelectual, é o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação (livros, artigos, obras musicais, invenções e outros) de livre uso comercial, porque não submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa física ou jurídica.

[11] DONHA João. O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado? Disponível em https://palavraluz.wordpress.com/2016/07/17/arquivokardec/ acessado em 16/02/2017

[12] Idem

[13] Idem

[14] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O MATERIALISMO E A TAREFA DE VLADO.


Luiz Carlos Formiga

“Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” – Jesus (João c.13 v 17).
Jesus não confia tarefas de importância fundamental a Espíritos inexperientes ou ignorantes. No entanto, é imperioso reconhecer o reduzido número daqueles que não adormecem no mundo, enquanto o Mestre aguarda resultados da incumbência que lhes foi cometida. Esquecem-se do mandato de que são portadores, de que a vida é a eternidade e que a existência terrestre não passa simbolicamente de “uma hora”. (1)
A tarefa de Vlado é, para os espíritas, um bom estímulo ou despertador.  (2)
O Espiritismo pulsava livremente antes da 2° Guerra Mundial na antiga Tchecoslováquia. Depois os regimes políticos acabaram com o Espiritismo. O que sobreviveu ao Nazismo foi destruído pelo Comunismo.
Josef Jackulak conta que no verão de 1989, ainda no tempo da “cortina de ferro”, havia planejado visitar a antiga Tchecoslováquia. Ele classificava essa iniciativa como um teste de coragem, pois como tcheco refugiado do comunismo, conhecia o risco e sabia da capacidade da polícia do regime.
As religiões não eram bem vistas e eram consideradas inimigas do regime opressor utopista e materialista. As casas espíritas foram confiscadas e qualquer atividade espírita era proibida; algumas pessoas foram encarceradas, ou constantemente vigiadas. No entanto, a fé foi sempre mais forte do que o medo. Os espíritas continuaram a se encontrar nas suas casas ou nos passeios, na natureza e florestas.
Josef Jackulak era então dirigente da Sociedade para Estudos Espíritas Allan Kardec, de Viena. Áustria. Em entrevista (2) ele comenta as perseguições contra o Espiritismo na segunda metade do século XX e o seu ressurgimento em países da Europa Central.
Na parte oriental da Europa a ideia comunista oprimiu a vivência da religião, mas não ofereceu nada para substituí-la e alimentar o espírito, criando pessoas materialistas.
Jackulak conheceu alguns sobreviventes dessa opressão. Cita um verdadeiro herói. Vladimir Sláde/ek, chamado carinhosamente por todos de Vlado, foi um exemplo de fé e coragem. Apesar de ser perseguido e ter sofrido agressões da polícia, nunca abandonou o ideal espírita. Escondeu as obras de Kardec, que depois lhe foram roubadas pela polícia.
Os comunistas enlouqueceram sua esposa doente aplicando-lhe injeções no hospital e conseguiram produzir-lhe o ódio, contra o marido.  Em seguida a obrigaram a denunciá-lo, destruindo seu casamento e a família.
Vlado traduziu ilegalmente livros espíritas. Ele era fluente em Alemão e Esperanto. Foram mais de 100 livros, incluindo os psicografados por Divaldo Pereira Franco e Francisco Cândido Xavier.
Com a queda do Comunismo em 1989, o ano de 1990 tornou-se histórico, pois Jackulak pode visitar Praga, sem preocupação.
No Brasil de hoje poderemos colaborar com a ideologia materialista ou com a divulgação da Doutrina Espírita. Só não podemos ser incoerentes, servindo a dois senhores ao mesmo tempo.
Sabemos que o homem não é apenas matéria, mas podemos cair na armadilha da ideologia materialista e chegar à psicose nihilista. Esse tipo de “religião” ativa provoca em seus seguidores “curto circuito” cognitivo e espiritual. Os valores éticos cristãos podem ser desvalorizados.
Para o materialismo, segundo Kardec, o futuro não existe e ele veio para minar toda razão de ser da moral e para solapar os próprios fundamentos da sociedade, proclamando o reino do egoísmo. O Espiritismo afirma que o futuro é tudo, satisfazendo à aspiração instintiva do homem, baseando-se em fatos. (3)
De modo subversivo, sem armas, sem guerras, o regime materialista chegou à universidade, à política partidária e à economia.
Emmanuel diz que é imperioso evitar as situações acomodatícias, em detrimento das atividades do bem. Diz-nos que somos obrigados a lembrar das inúmeras comunidades de alicerces cristãos que permanecem dormindo nas convivências pessoais, nos mesquinhos interesses, nas vaidades efêmeras. Embora falando do Cristo, elas se referem à sua imperecível exemplificação, como se fossem sonâmbulos, inconscientes. (4)
No Brasil, temos boas condições para a resistência. Um estudo disse que, em relação ao Brasil o Espiritismo uruguaio estaria “em fraldas”, ou “no jardim de infância”. (5)
A grande e árdua batalha espírita brasileira será contra a hegemonia do regime materialista. Os líderes dessa ideologia defendem a igualdade material fruindo sua riqueza, através de “testas de ferro e laranjas”, em mansões, fazendo compras em Paris. Essas lideranças amorais acumulam e escondem grandes fortunas e podem contratar defensores de notável saber jurídico.
Políticos que enriqueceram ilicitamente, quando chegam ao plano espiritual, se tornam um dos diálogos mais difíceis no resgate. (6)
Como é a técnica de dominação? Os líderes elaboram metas prioritárias. Seus investimentos prosperam, porque cristãos distraídos, iludidos, promovem suas causas.
Um número mesmo reduzido dessas metas pode nos dar uma ideia da técnica maquiavélica.
Procuram tomar o controle das escolas, das universidades para depois usá-las como meio de transmissão ideológica. Controlar as associações de professores é muito importante.
Eles procuram sempre quebrar padrões culturais de moralidade, desacreditar a Família, a religiosidade, enfatizando que não há necessidade de usar “muleta religiosa.”(7)
Allan Kardec sabia que nas ciências exatas o estado moral do investigador não tem a menor interferência. No estudo dos fenômenos psíquicos é diferente, pois é necessário criar clima de serenidade, recolhimento e pensamentos nobres, para que funcione a lei de afinidade psíquica. (8)
Trabalhar no resgate, na desobsessão, num pais diante de um regime político materialista não é fácil, diria Vlado.
O espírito opressor, obsessor, inicia a sua investida geralmente sugerindo que se cometa pequenos delitos. Afinal, todo muito faz, disse o adolescente: “lá na escola todo mundo fuma maconha”.
Nestes últimos 15 anos, através de suas fronteiras, o Brasil viu aumentar de forma fantástica a entrada da pasta-base da coca boliviana.
De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac), Estado do Rio de Janeiro, 20% dos motoristas de ônibus, portadores das carteiras de habilitação C, D e E, foram detectados como usuários de maconha ou cocaína. Se levarmos em conta que esses dados podem representar uma amostragem de 18 mil condutores, somente nas cidades de Niterói, São Gonçalo, Maricá, Itaboraí e Tanguá, o problema se torna muito mais sério. Um caso de saúde pública.
A lei exige a realização de exame toxicológico. Os motoristas, no entanto, têm enfrentado dificuldades com a Previdência Social, que tem negado o direito ao tratamento médico. (9)
Leon Denis, em 1924 foi muito feliz em sua explanação, pertinente ainda hoje.
Diz ele: longe de nós o pensamento de criticar os comunistas de convicção sincera, que desejariam estabelecer na Terra o regime social que reina, provavelmente nos mundos superiores. E continua: esse regime exige qualidades morais e sentimento de altruísmo que não existe senão em condições excepcionais em nosso mundo egoísta e atrasado.
Denis explica que se poderia fazer das teorias comunistas, à parte, aspirações generosas, mas seria fácil demonstrar que elas são prematuras e inaplicáveis na sociedade atual. A posse individual dos frutos do trabalho permanecerá como estimulante indispensável, o meio de emulação que assegura colocar em ação o equilíbrio das forças sociais.
Diz ele, ainda, que nesse momento, o comunismo não é realizável senão no seio de grupos restritos, cuidadosamente recrutados, nos quais todos os membros são animados por uma fé intensa e espírito de sacrifício. Não se poderia sonhar com a possibilidade de estender a aplicação a nações inteiras. Também, não será através do crime e pelo sangue que se poderá fundar um regime de fraternidade, de solidariedade e de amor! (10)
Surgem os pequenos delitos, depois aparece a figura da pessoa como “casa abandonada, com as janelas quebradas”, da teoria psicológica. O primeiro a lançar a pedra cria a motivação.
Nesse trato com os desencarnados o S.O.S. não é bem compreendido pelos que possuem inteligência espiritual em fase embrionária.
Diz Miranda (11) que o trabalho de doutrinação, de resgate, rescue work em inglês, só é possível em clima de total doação, de empatia, de profundo e sincero amor fraterno, o que o torna uma atividade do coração, muito pessoal, essencialmente humana.
O trabalho será implacavelmente assediado. Levantar-se-ão contra ele forças obstinadas, dispostas a tudo para fazê-lo calar-se e dissolver-se. A medida de seu êxito, em termos espirituais, é precisamente a perseguição.
Miranda cita um pequeno incidente, aparentemente sem importância, para explicar a oração e a vigilância necessária e constante.
Diz ele. Nossos amigos espirituais de há muito nos haviam prevenido de que, em hipótese alguma, deixássemos ultrapassar o horário de atendimento. Assim, redobrei o cuidado com o controle do tempo. Veio outra observação. Recomendavam-me que procurasse colocar o relógio diante de meus olhos, de forma que, para consultá-lo, não fosse necessário virar-me e tomá-lo nas mãos, como costumava fazer.
Por que a recomendação?  A resposta é muito simples.
Não apenas a preocupação excessiva com o tempo pode nos desviar do clima exigido pelo trabalho, mas porque até mesmo o próprio gesto de me voltar poderia quebrar a continuidade da tarefa junto ao espírito sofredor incorporado. Isso provavelmente exigiria esforço maior dos companheiros amigos desencarnados.
Quem poderia imaginar que a mera posição de um relógio, na sala de resgate, fosse tão importante, a ponto de merecer advertência específica?
Existem pontos críticos como a seleção dos médiuns que é da mais alta importância, bem como a maneira de tratá-los e integrá-los no trabalho.
Se a recomendação de estudar sempre é válida para o grupo, como um todo, para o médium ela adquire as proporções de uma obrigação.
Existem qualidades desejáveis e outras que são indispensáveis. Entre estas estão a formação doutrinária, a evangelização, a autoridade moral, a fé e o amor.
O amor fraterno tem que emergir das profundezas do ser, como um movimento irreprimível, no qual nos doamos integralmente, quer o companheiro aceite ou não, de pronto, a nossa entrega.
Diz Miranda que se lhe fosse pedido o segredo da doutrinação, do resgate, diria apenas uma palavra: — Amor!
Vlado sabia que nós, os obreiros distraídos, podemos nos tornar heróis da resistência e do resgate. Que para o trabalho de “fazer despertar” seria necessária fé e coragem. Que não poderia ceder à impaciência dos afoitos, que querem os frutos antes de estar maduros.
Vlado sabia, como Miranda, que “Amai-vos uns aos outros”, e “amai os vossos inimigos”, não são frases bonitas, mas condições essenciais ao trabalho.
Pelo exposto, podemos reafirmar o que dissemos anteriormente.
A liberdade de crença e religião, sendo preservadas, aprimoradas e estendidas a todos os indivíduos, trará ainda maior evolução dos direitos e garantias individuais, que conduzem à justiça social e à paz entre os povos.
Proibir uma obra é revelar temor. Na época da revolução de 1964 procurei me informar sobre o Manifesto Comunista. Gostei. No entanto, quatro décadas depois, ainda gosto mais do Manifesto do Sermão da Montanha, a alma do Evangelho. (12)

1.  Emmanuel. Caminho, Verdade e Vida, cap.87-88.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Os Problemas enfrentados pelo Movimento Espírita após a morte de Allan Kardec e as atuações de Delanne e Denis


Leonardo Marmo Moreira


A palavra "derrocada" muito provavelmente é exagerada, mas, realmente, o movimento espírita francês enfrentou muitas dificuldades após a desencarnação de Allan Kardec.

A liderança do movimento espírita após a desencarnação de Kardec passou a ser "dividida" entre Pierre Gaëtan Leymarie e Amélie Gabrielle Boudet, mas, na prática, a viúva de Kardec passou a ser uma espécie de "presidente de honra", pois lenta e gradualmente, Leymarie foi isolando Madame Boudet das tomadas de decisões (vide a obra de nosso confrade Adriano Calzone, "Madame Kardec"). 

A centralização do poder por Leymarie começou a ser sentida no movimento espírita, em um primeiro momento, através da "Revista Espírita". De fato, o grande periódico deixado por Allan Kardec passou a ser dirigido por Leymarie, que imprimiu uma administração no mínimo "polêmica" (os mais críticos talvez arriscassem afirmar "caótica"). De fato, Leymarie era simpatizante das ideias e dos trabalhos de Roustaing, da Teosofia de Madame Blavatky e até da maçonaria. Assim, alegando estar respeitando o caráter evolutivo da Doutrina Espírita, para não deixar o Espiritismo estacionado no tempo, Leymarie passou a considerar para publicação artigos pouco doutrinários, desde que fossem espiritualistas.

Tais dificuldades acabaram repercutindo, pelo menos indiretamente, no chamado "Processo dos Espíritas" (processo que gerou o livro homônimo traduzido ao português por Hermínio C. Miranda), quando Madame Kardec e Leymarie vão para o banco dos réus em função de publicação de fotos de efeitos físicos.

O próprio Gabriel Delanne terá oportunidade de afirmar que os problemas que o movimento espírita enfrentava tinham sido causados pelo próprio movimento espírita.

Alguns confrades, aproveitando a menção a Delanne, poderiam questionar: Onde estavam Gabriel Delanne e Léon Denis nesse momento?

Quando Kardec desencarnou Gabriel Delanne, muito embora espírita militante, nascido em "berço espírita", tinha apenas 12 anos de idade e Léon Denis, muito embora mais velho que Delanne (tinha 23 anos quando Allan Kardec desencarnou) serviria o exército na Guerra franco-prussiana de 1870 e, apesar de já espírita, ainda não estava muito integrado ao movimento espírita. Ademais, Léon Denis era de Tour, interior da França, e não da capital. Longe de Paris, Denis demoraria mais tempo para ganhar uma certa notoriedade no movimento espírita da época. Tanto Delanne como Denis demorariam um certo tempo para publicar seus primeiros livros espíritas. Apesar de mais jovem, Delanne publicaria antes de Denis. De fato, em 1883 Delanne, já reconhecido como destacado trabalhador espírita parisiense, publicou "O Espiritismo perante a Ciência" e pouco tempo depois Léon Denis publicaria "O Porquê da Vida". Trata-se de um intervalo de aproximadamente catorze (14) anos desde a morte de Allan Kardec. No entanto, o intervalo entre a atuação efetiva no mundo físico de Kardec e a dupla Delanne/Denis, dependendo do tipo de análise, pode até ser considerado maior, pois Delanne e Denis passaram a exercer maior influência no movimento espírita somente da década 1890 e, principalmente, a partir de 1900.

No livro "Entre Irmãos de Outras Terras", da psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira, André Luiz entrevista Gabriel Delanne sobre os problemas que o Movimento Espírita enfrentou na Europa, e sobretudo na França, após a morte de Allan Kardec, e Delanne afirma que a França enfrentou três grandes guerras (a guerra franco-prussiana de 1870 e as duas grandes guerras mundiais), o que dificultou muito o andamento do movimento espírita francês. Essa opinião corrobora a análise de Léon Denis sobre o impacto da primeira guerra mundial sobre muitas sociedades espíritas que tiveram que ser fechadas (vale lembrar a obra de Denis intitulada "O Mundo Invisível e a Guerra").

Portanto, as guerras foram decisivas para os problemas no Espiritismo francês pós-Kardec, mas antes delas, a liderança do movimento espírita sofreu demais após a morte de Allan Kardec, principalmente pela falta de coerência doutrinária, principalmente no órgão de divulgação legado por Kardec, que era a "Revue Spirite". De qualquer maneira, a partir do momento em que Delanne e Denis conseguiram uma justa notoriedade, dentro do seio do movimento espírita, o cenário melhora sensivelmente. Realmente, a partir de então, haverá uma significativa revivescência do movimento espírita francês até meados da década de 1920, quando Denis, Delanne e também Gustave Geley e Camille Flammarion desencarnam. 

Subsequentemente, em 1935, desencarnaria o "Pai da Metapsíquica" e simpatizante do Espiritismo Charles Richet e estaríamos às portas da Segunda Guerra Mundial, que geraria, entre outras dificuldades, a ocupação nazista da França por quase meia década.

Nesse momento, Chico Xavier já atuava no movimento espírita brasileiro, pois já tinha publicado "Parnaso de Além-Túmulo" em 1932 e estava publicando "Cartas de Uma Morta", de Maria João de Deus, e "Crônicas de Além Túmulo" de Humberto de Campos. De fato, Chico Xavier converte-se ao Espiritismo aos oito de Julho de 1927 menos de três meses após a desencarnação de Léon Denis, o último dos quatro trabalhadores citados a retornar ao mundo espiritual (Denis, Delanne, Geley e Flammarion).

Assim, a "passagem do bastão", em termo de liderança do movimento espírita no mundo, da França para o Brasil, salvo melhor juízo, ocorreria, de fato, após a morte de Léon Denis, entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930, com o início do mediunato de Chico Xavier, e não com a atuação de Bezerra de Menezes no Brasil. De fato, Doutor Bezerra desencarna em 1900, época que Delanne e Denis estavam chegando ao "auge" de suas atuações espíritas, o que ainda duraria mais de 25 anos! Vale lembrar que o tio espírita de Eurípedes Barsanulfo geraria a "conversão" do querido sobrinho ao Espiritismo em meados da primeira década do século vinte, ao emprestar para ele uma cópia da maravilhosa obra de Léon Denis "Depois da Morte".

Logo, apesar de uma significativa e compreensível "crise" no movimento espírita francês nos anos imediatamente subsequentes à morte de Allan Kardec, a atuação verdadeiramente apóstólica de Gabriel Delanne e Léon Denis manteve vivo o legado kardequiano por muitas décadas, inclusive durante e após a primeira guerra mundial.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Além das tumbas não há tempo disponível para dissimulações (Jorge Hessen)


Jorge Hessen

Estava aqui pensando sobre o abjeto mercantilismo da mensagem espírita. Já fizemos muitas preces direcionadas aos  confrades “vendilhões” e os equivocados oradores plagiadores. No Brasil há um portal na WEB que não se oprime ao comercializar Cd’s e Dvd”s contendo as palestras de orador ilustre. Pessoalmente (via e-mail) já arguimos a equipe do célebre orador e d’outros confrades, em particular e até os repreendemos através de testemunhas e pela imprensa, seguindo rigorosamente o que recomendou Jesus.

Contudo, nada prosperou, pois não nos escutaram. Infelizmente, ainda hoje vemos a corretagem de vídeos de palestras espíritas pelo “You Tube”. Isso sem falar naqueles outros palestrantes “espíritas” que estão surgindo cá e acolá, plagiando o tribuno  Divaldo Franco. Às vezes,  copiam e proferem o roteiro das palestras do tribuno baiano , imitando o seu estilo pessoal, seja na impostação e timbre  da fala, seja no gesto das mãos etc , etc ,etc...  

Certa vez, um confrade explanou para mim a respeito das peripécias de um “famoso” orador que fora convidado para falar no Centro em que ele dirige.  Confidenciou-me que o tal palestrante escalado,  plagiava, grotescamente, com gestos cômicos, modos de expressão verbal e trechos decorados das conferências do Divaldo Franco, inclusive (pasme!!) "incorporando" “Bezerra” (!) após a palestra (!?).

Segredou-me, ainda, que outro orador “espírita” convidado por ele, utilizou equipamentos de filmagem para edição e autoprodução de DVDs e CDs (para venda) como prática de incontida e peculiaríssima AUTOPROMOÇÃO, achando que está divulgando a Doutrina dos Espíritos. Ainda sobre esse último orador, outro dirigente disse-me que certo dia ao final da palestra, foi exigido, com gracejos inadmissíveis, os aplausos do público, dizendo que na terrinha onde ele (orador) nasceu era comum o púbico aplaudir as suas palestras.

Vamos raciocinar um pouco (não historiaremos sobre o portal que mercadeja as palestras do orador afamado).

Fixarei no orador “espírita” que plagia e imita o Divaldo. Este não tem o menor senso de ridículo, pois, apodera-se de temas e da identidade alheia, sem o menor escrúpulo, e essa é uma atitude obsessiva e/ou psicopatológica, porque lhe é auto plasmada. Ao imitar o Divaldo, esquece-se de que tal atitude não passa de uma dissimulação.

Como se não bastassem as momices, os peculiares e grotescos fatos é comum alguns “famosos” oradores, sob o manto da falsa humildade, oferecerem-se para proferir palestras em todas as instituições espíritas. Fazem autopropaganda, entram em contato (via celular, WhatsApp, facebook, e mail etc. etc. etc.)  com os que coordenam as escalas e se dispõem, "modestamente", a serem designados para “palestrar” nos Centros Espíritas.

Aos burlescos palestrantes, candidatos ao estrelismo no movimento espírita, urge adverti-los para não se enceguecerem ante os holofotes e aplausos dos filhos da ignorância doutrinária. Palestra não é show de teatro. Não podemos incorporar as caricatas charges de missionários para divulgarmos o Espiritismo. O expositor espírita não é um profissional da fé, que precisa dramatizar, ou usar recursos de imitação do Divaldo, para angariar fiéis. Sua tarefa é informar de forma simples, nobre e coerente sobre o Espiritismo.

A transmissão da palestra espírita é coisa sublime, pessoal, inimitável. Destarte, temos a obrigação de jamais plagiar quem quer que seja, sobretudo, os oradores que dão "Ibope", que superlotam os centros de convenções. Em face disso, creio que todo dirigente tem o dever de advertir os palestrantes imitadores, porque é um despropósito a clonagem do Divaldo.

É importante sermos o que somos, modestos, sem exageros, lembrando que uma palestra num Centro Espírita é mais uma conversa do que um discurso laudatório ou uma conferência bombástica. Urge recorrermos a linguagem simples e de bom gosto, lembrando que estamos, ali, a serviço do Cristo para explicar e fazer o público entender a mensagem do Espiritismo, não para exibir cultura e muito menos autopromoção.

Sobre este alerta, quem se encaixar nele,  deve acolher, com deferência , humildade e sem melindres, toda advertência, procurando avaliar, cuidadosamente, o seu trabalho e, assim, melhorar, cada vez mais, a “tarefa” que lhe cabe (eu disse “serviço” e não “missão”).  

Outra coisa, o orador não deve abusar das anedotas e ou narrar casos chistosos,  a fim de provocar gargalhadas do público para angariar um fã clube. Não pode usar a tribuna como se fosse um palco de teatro para humoristas. Se o orador tem o dom de fazer humorismos que procure o teatro, a emissora de TV, o rádio, o cinema e exerça a digna arte de ator. É muito mais honesto.

Sem querer ser "santo", mas, alguém, sinceramente, empenhado em edificar-se moralmente, o orador, a cada dia, deve lembrar, sempre, que, para o público ouvinte, ele representa o Espiritismo e o Movimento Espírita. Ademais, o orador despretensioso é uma peça importante na propaganda e na Difusão do Espiritismo. Por isso, a “tarefa” deve ser encarada com extrema responsabilidade e praticada com esmerada bagagem moral e cultural, sem prejuízo da indispensável coerência.

Não se pode esquecer que quando alguém se propõe a ouvir um orador Espírita, o faz no pressuposto de que ele sabe o que está falando e lhe oferece, silenciosamente, um voto de credibilidade, capaz de mudar, metodicamente, ideias ou conceitos errôneos que nele estavam arraigados, podendo transformar, até mesmo, toda uma trajetória de vida!

Pensemos nisso, o quanto antes, pois além da tumba não há tempo disponível para dissimulações.